Crescimento das bicicletas elétricas em São Paulo
A popularidade das bicicletas elétricas e scooters tem demonstrado um crescimento notável nas ruas de São Paulo. Um estudo realizado pela ONG Ciclocidade, em colaboração com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), revela que o número de viagens realizadas com bicicletas tradicionais apresentou uma diminuição de 7% nos últimos três anos. Enquanto isso, as viagens com bicicletas elétricas e outros veículos autopropelidos, como scooters, aumentaram para mais de dez vezes durante o mesmo período.
As estatísticas mostram uma mudança significativa no comportamento dos usuários: o total de viagens com bicicletas convencionais caiu de 36,5 mil para 33,75 mil, o que representa uma redução de 7,53%. Por outro lado, as viagens com bicicletas motorizadas pularam de 703 para 7.268, demonstrando um crescimento impressionante.
A queda no uso de bikes tradicionais
A tendência de diminuição no uso de bicicletas tradicionais pode estar relacionada a vários fatores. A falta de espaço adequado nas ciclovias, além da insegurança no trânsito, são aspectos apontados por especialistas como críticos. A redução do espaço disponível para ciclistas também pode estar influenciando a preferência por bicicletas elétricas e scooters, que oferecem uma solução mais eficiente para os deslocamentos urbanos.

Com a diminuição do uso das bikes convencionais, é necessário entender os impactos que essa mudança pode ter, tanto sobre a mobilidade urbana quanto sobre a estrutura do transporte público. Essa queda no uso pode refletir uma necessidade urgente de adaptação na infraestrutura cicloviária da cidade para melhor atender à demanda crescente por alternativas de transporte.
A migração do transporte público para veículos motorizados
Uma pesquisa indicou que aproximadamente 50% dos usuários de veículos autopropelidos vieram do transporte público. Essa migração é uma preocupação crescente entre especialistas em mobilidade, que temem que a diminuição do número de passageiros no transporte público leve ao aumento das tarifas. Esse ciclo vicioso pode ter efeitos prejudiciais para a população que depende dos ônibus e metrôs.
Mateus Humberto, professor de Engenharia de Transportes da Universidade de São Paulo (USP), expressa sua preocupação: “O retrocesso que estamos enfrentando é significativo, especialmente se considerarmos que muitos usuários desses novos veículos estão abandonando o transporte público, o que poderia encarecer ainda mais esse serviço. Se não tomarmos medidas agora, poderemos compensar a perda de passageiros com um aumento nas tarifas, criando um cenário ainda mais estressante para todos”.
Os desafios da malha cicloviária na cidade
Os compromissos da Prefeitura de São Paulo em relação ao crescimento da malha cicloviária têm enfrentado obstáculos significativos. A meta inicialmente prevista de alcançar 1.000 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas até 2024 foi adiada, e agora a nova previsão é para o final de 2028. Esse adiamento pode sinalizar uma falta de prioridade em relação à mobilidade sustentável e às necessidades dos ciclistas na cidade.
Atualmente, há cerca de 750 quilômetros de infraestrutura exclusivamente para bicicletas, e muitos usuários expressam insatisfação quanto à qualidade e ao espaço dessas vias. O Largo da Batata, por exemplo, foi um ponto importante para ciclistas, oferecendo serviços como aulas e reparos até 2024, mas atualmente está desativado, o que gera descontentamento entre os que utilizam bicicletas para se locomover.
Aumento preocupante de mortes de ciclistas
Outra questão alarmante que emerge desse cenário é o recente aumento no número de mortes de ciclistas na capital. O ano de 2026, mais especificamente entre janeiro e julho, registrou um aumento de 28% nas fatalidades, com 18 ciclistas perdendo a vida durante esse período. Esta estatística fornece um forte indicativo de que é preciso aumentar a segurança nas vias para quem se utiliza de bicicletas, principalmente nas áreas de maior fluxo de veículos.
Mateus Humberto ressaltou a importância de um maior cuidado nas ruas: “Precisamos de mais calma nas vias, especialmente para motoristas de veículos motorizados, que devem estar atentos aos ciclistas”. É vital que todos os usuários da via, sejam motoristas, ciclistas ou pedestres, coloquem a segurança em primeiro lugar, e a educação no trânsito é essencial para alcançar essa meta.
Espaços para ciclistas estão deteriorando
Apesar do aumento na popularidade das bicicletas elétricas e dos scooters, muitos ciclistas sentem que o espaço disponível nas vias da cidade está encolhendo. As ruas de São Paulo, em muitos pontos, não são projetadas para suportar a quantidade crescente de ciclistas e suas interações com veículos motorizados, resultando em um ambiente potencialmente perigoso. O desmantelamento de pontos de apoio, como o que existia no Largo da Batata, exemplifica essa deterioração.
Victor dos Santos, engenheiro civil, aponta para a necessidade de um sistema que integre diferentes pontos de apoio para ciclistas. Ele acredita que um suporte melhoraria enormemente a experiência de deslocamento e aumentaria a segurança para todos os usuários das vias.
Falta de infraestrutura para bicicletas elétricas
A infraestrutura precisa se adaptar às novas realidades de mobilidade urbana. A falta de carregadores e espaços dedicados para bicicletas elétricas torna difícil para os usuários aproveitarem ao máximo seus veículos. Essa necessidade de infraestrutura não apenas apoia o crescimento das bicicletas elétricas, mas também assegura a convivência harmônica entre as bicicletas convencionais e os veículos motorizados.
Enquanto a cidade avança em direção a um modelo de transporte mais sustentável, a falta de comprometimento com a expansão das ciclovias e das instalações adequadas para carregamento de bicicletas elétricas é um fator que pode prejudicar o progresso em direção a um futuro mais verde.
Regulamentações de trânsito e segurança
As regras não escritas que regem a interação entre diferentes modos de transporte nas ruas frequentemente não são seguidas, o que contribui para a desorganização e aumento do risco de acidentes. Especialistas em mobilidade sugerem que a lógica deveria ser que o maior protege o menor: ônibus devem cuidar dos carros, os carros devem ficar atentos aos ciclistas, e os ciclistas, por sua vez, devem priorizar os pedestres.
No entanto, essa regra muitas vezes é ignorada, especialmente em áreas congestionadas, como as Marginais Pinheiros e Tietê, onde as bicicletas são permitidas nas pistas locais, mas não nas expressas. Apesar disso, muitos ciclistas se aventuram no tráfego intenso, elevando suas chances de acidentes.
Expectativas para o futuro da mobilidade em SP
Com o crescente número de ciclistas e a necessidade de um sistema de transporte mais eficiente, as expectativas para o futuro da mobilidade em São Paulo devem considerar todas as alternativas de transporte. A integração de bicicletas elétricas e convencionais numa malha cicloviária segura e extensa é uma necessidade emergente. A cidade deve não apenas expandir a infraestrutura, mas também investir em campanhas de conscientização sobre segurança no trânsito.
Se as prefeituras adotarem uma abordagem proativa e escutarem a necessidade dos ciclistas e usuários de meios de transporte sustentáveis, é possível reverter tendências negativas e criar um ambiente mais seguro e acessível para todos.
Importância da educação no trânsito para todos os modais
Por fim, para que a convivência entre os diversos meios de transporte seja harmoniosa e segura, a educação no trânsito para ciclistas, motoristas e pedestres é imperativa. Campanhas que promovem o respeito mútuo e a consciência sobre as regras de tráfego podem fazer uma diferença significativa na segurança de todos os envolvidos.
Como enfatizado por Yasmin Rufino, empresária que se movimenta na cidade, “educação e respeito no trânsito são essenciais, tanto nas ciclovias quanto nas vias em geral”. Criar uma cultura de cuidado e respeito é vital para garantir que o crescimento das bicicletas elétricas e o uso de scooters não venha à custa da segurança de quem usa as vias públicas.
